O trabalho da Saúde Mental da CASP

 O programa de Saúde Mental do Centro de Referência para Refugiados da CASP é um apoio oferecido a refugiados e solicitantes de refúgio. O trabalho, que hoje tem uma média de 10/15 atendimentos individuais por semana, atua de forma integrada com os outros programas da Caritas (Acolhida, Assistência, Integração ou Proteção), que ao identificarem a necessidade desse tipo de ajuda ofertam o serviço.

“Boa parte das pessoas que procuram o programa de Saúde Mental apresentam grande sofrimento, tanto pelo que aconteceu na sua história e traumas que passou, mas muito também pela dificuldade de adaptação aqui, e pelos preconceitos sofridos por questão de etnia, lugar de origem, pela cor da pele, por não conseguir trabalho além da barreira da língua”, explica Ingrith Andrade, psicóloga da Saúde Mental do Centro de Referência para Refugiados da CASP.

 No Brasil, refugiados e solicitantes de refúgio precisam encontrar moradia, às vezes dependem de doações e enfrentam precariedade de subsistência, questões que podem gerar ou agravar o sofrimento. “Chega muita gente com queixa de sintomas físicos, de insônia, de alergias de pele, dor de estômago, mas que a gente sabe que são [problemas] decorrentes do sofrimento. A pessoa acaba somatizando [todas essas questões], isso é bem comum”, diz Ingrith.

 A Saúde Mental do Centro de Referência para Refugiados da CASP trabalha em rede e quando necessário faz encaminhamentos aos CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e demais espaços de saúde mental da rede SUS, além de ter parceria com o ambulatório transcultural do IPQ (Instituto de Psiquiatria) do Hospital das Clínicas, que oferece atendimento psiquiátrico em inglês, francês e árabe. O programa ainda participa de reuniões mensais com a rede de Saúde e Assistência que trabalha com imigrantes de refugiados em São Paulo, os encontros são abertos e ocorrem na Missão Paz e contam com as participações de diversos grupos e serviços como UBSs, NASF, CRAI, IPQ, casas abrigo para Imigrantes, Grupo Veredas e Sedes.

 Crianças e adolescentes

 Segundo Ingrith, as crianças geralmente são mais resilientes em comparação aos adultos e se adaptam com maior rapidez ao contexto brasileiro, sobretudo em relação ao idioma. “A queixa geralmente é outra, tem muito mais a ver com os traumas que passou, medo ou algum sintoma da infância”, conta Ingrith. Mas segundo a psicóloga há também casos de crianças que encontram dificuldades de adaptação, o contexto dos novos amiguinhos na escola e as diferenças culturais encontradas no Brasil são alguns exemplos.

 O atendimento a adolescentes que chegaram ao país desacompanhados é outra demanda importante da Saúde Mental. No caso dos jovens, a questão mais recorrente é a ansiedade para as responsabilidades pós-abrigo, ou seja, adquirir maturidade para cuidar de si, uma vez que após os 18 anos os adolescentes saem da tutela do estado e precisam cuidar da própria vida.

Atendimento em grupo, compartilhando experiências

 Implementado no último mês, o atendimento de escuta em grupo na sala de espera do Centro de Referência para Refugiados é uma nova frente de trabalho da Saúde Mental. “Não precisa estar em extremo sofrimento para estar no grupo, é conversar, é falar sobre dificuldade de adaptação, é criar uma rede de apoio entre eles [refugiados/as], entender que não estão sofrendo sozinhos, que há outras pessoas passando pela mesma situação. Muita gente está vindo nos grupos mesmo sem ter outro agendamento. O grupo é aberto, a gente chega na recepção e convida na hora quem quiser participar”, explica Ingrith.

 A ideia dos grupos ajuda a superar barreiras culturais e a apresentar a figura do psicólogo como alguém que pode ofertar uma escuta de saúde mental, além de superar uma leitura de senso comum que associa sofrimento à loucura. Além disso, a equipe da Saúde Mental também organiza passeios a espaços culturais da região central de São Paulo. “Muita gente só de vir e conversar em grupo já se beneficia muito e não é uma coisa de ter que conversar sozinho com o psicólogo, que às vezes gera medo, receio, ansiedade… Nessa dinâmica coletiva fica muito mais fácil”, completa. Os grupos ocorrem às segundas, terças e quintas-feiras na sala de espera da CASP.