Refugiado da Guiné abre a própria oficina de costura

 Thiernu cria peças e faz reparos em roupas para crianças e adultos. Com o dinheiro, sonha em um dia reunir a família no Brasil

 

Foi no terceiro andar da Galeria Presidente, na Rua 24 de Maio, região central de São Paulo, que Thiernu Sadou Bah, refugiado nascido na Guiné-Conacri, encontrou um lugar para dar início à sua oficina de costura.

Em meio a lojas de produtos e serviços diversos, o espaço de número 18 é destinado a todos aqueles que precisam de um reparo nas roupas ou de uma peça feita por encomenda, seja adulto ou criança. E quem está à frente do negócio vem de experiências anteriores com costura.

 “Sempre fiz muitas coisas. Quando perdi meu trabalho de ajudante de obra, logo que cheguei no Brasil, trabalhei com um rapaz na Rua 25 de Março e costurava coisas pra vender. Depois trabalhei no carnaval, costurei fantasias para a [escola de samba] Águia de Ouro. Hoje estou nessa loja e costuro tudo”, conta.

 

 Vivendo no Brasil há três anos, Thiernu, que fala inglês, francês e português, foi ainda auxiliar de classe numa escola e atualmente, além de cuidar da oficina, trabalha à noite como segurança. Vindo de Cabo Verde, onde teve um bar e também se dedicava à costura, ele já passou por outros lugares antes de chegar ao País e conta que precisou fugir para poder ficar ao lado da esposa.

“Passei por Guiné Conacri, Serra Leoa, Senegal e Cabo Verde. De Cabo Verde, vim para o Brasil. Minha esposa é de Serra Leoa, mas na África eles não aceitam que pessoas de raças diferentes se casem. Tivemos esse problema lá e fugimos para cá. Tem muito esse problema de raça nos países da África. Essa pessoa não pode casar com aquela outra e assim vai. Isso acontece muito”, explica ele.

 Brasil e países da África

Não foi só a proibição de casamento entre raças e etnias que Thiernu deixou para trás quando fugiu da África. De acordo com ele, “tem muitas pessoas sofrendo lá. Guiné Conacri, Serra Leoa, Libéria, em todos é difícil. Tem guerra, tem ebola, crianças com doenças. A criança fica doente e o tratamento é em casa, não tem como levar para o hospital. As pessoas também sofrem com perseguição”.

 Quando compara esse contexto do passado com o Brasil, as diferenças, para ele, são muitas, a começar por questões de documentação. “Já pesquisei muitas coisas na internet sobre o Brasil. Quando você chega, tem direito a tirar documentos. Eu gosto de ficar em lugares assim. Eu já fui para a Europa. Sofri, não tinha documentos. Já aqui no Brasil, tem o direito ao documento”, explica.

Além de poder viver ao lado da esposa e de dois dos filhos, Thiernu diz encontrar em solo brasileiro algo que está escasso em seu país de origem: trabalho. “O Brasil está muito na frente da Guiné. Aqui tem emprego. É difícil achar, mas tem. Lá na Guiné não tem. Você precisa aprender a fazer as coisas da sua cabeça, tem que ser criativo”, lembra, e menciona ainda o recebimento do seguro-desemprego quando o demitiram da função de auxiliar de classe, para ele um benefício importante.

Claro que em todo esse cenário há também aspectos negativos. Thiernu diz que às vezes é difícil conciliar a rotina intensa com o cuidado dos filhos, um menino de 17 anos e uma menina de um ano e dois meses. “Trabalho para comprar as coisas, como máquinas de costura. Mas é tudo difícil. Trabalho de noite como segurança e de manhã, na oficina. Não tenho tempo para meus filhos, não tenho tempo de descanso. Eu gostaria de largar meu trabalho como segurança para trabalhar só aqui”, finaliza.

O sonho de reunir a família

 Toda a luta de Thiernu é motivada pelo desejo de reunir a família no Brasil. Isso porque dois dos quatro filhos, um menino e uma menina, ficaram em Serra Leoa com uma amiga dele e da esposa. Mesmo atualmente integrado à cultura brasileira, ele afirma que ainda falta trazer as crianças ao seu convívio para se sentir completo.

 “Hoje eu já tenho documento. Mas o mais difícil ainda é construir minha família aqui. Meus filhos estão muito longe. Não tenho como ir lá e não tenho como trazê-los para o Brasil. Trabalho depende de sorte. Isso é o mais difícil pra mim. Tem que ter trabalho pra poder ganhar, para trazer os filhos. A saudade é difícil”, lamenta.

O que traz muita tristeza a Thiernu é a incerteza sobre as condições de vida das crianças em Serra Leoa. Apesar de manter algum contato com eles, há certa desconfiança quanto ao tratamento que recebem por parte da mulher que os tem em sua responsabilidade.

“Eu já vi fotos deles e eles estão magros, não têm mais aquele corpo que eu vi com eles quando saí. Eu fico triste. Não sei se eles estão bem, se têm alguma ajuda. Às vezes quando eu telefono para eles, eles dizem que não estão bem, que ela bate neles. Ela ri no telefone e fala: ‘Criança é assim, eles mentem.’ Sei que meus filhos não vão mentir, é difícil criança mentir”, desabafa.

 Com seu trabalho aqui no Brasil, Thiernu envia dinheiro aos filhos na África. Ainda assim, o valor que consegue atualmente não é o suficiente para trazê-los ao Brasil. De acordo com ele, ainda que não tenha maneiras de se manter e cuidar da família no país, prefere tê-los por perto de qualquer maneira.

 “Meu sonho é trazer meus filhos pra cá. Mesmo se eu não ganhar dinheiro aqui, mesmo que eu não tenha nada aqui pra eles comerem, quero que eles venham. Quero dinheiro para usar e pra sustentar minha família, mas não gosto de dinheiro, eu gosto é da minha família. Dinheiro eu quero, mas gosto mais da minha família do que de dinheiro. Com dinheiro não tem sentimento, não tem amor. Quando se tem amor por uma pessoa, por um filho, você passa o tempo no trabalho e liga para saber deles, brincar com eles. Tudo que eu faço é pensando neles. Eles são o futuro da minha vida. Quero realizar esse sonho”, conclui.

 Procure a loja do Thiernu no centro de São Paulo!

Rua 24 de Maio, nº 116 – 3º andar – Loja 18

Costura e consertos em geral – Roupas para adultos e crianças

(11) 95846-3978

 Por Luana Fagundes

Fotos: Luana Fagundes