Para organizador da Copa dos Refugiados, sociedade precisa ser informada sobre o refúgio

 Jean Katumba trabalha em projetos sociais para dar mais visibilidade à diversidade dos refugiados no Brasil

 Foi durante um encontro com outros colegas que estão refugiados na cidade de São Paulo que Jean Katumba ajudou a organizar a primeira Copa dos Refugiados, campeonato de futebol nascido em 2014 – inspirado na Copa do Mundo ocorrida no Brasil. O objetivo, muito além de um evento esportivo, era mostrar às pessoas quem são os refugiados e os motivos que os trouxeram ao país.

 Desde que chegou ao Brasil, em junho de 2013, Jean se dedica a trabalhos voltados a comunidades de refugiados em São Paulo, mas o primeiro desafio encontrado no país foi reunir novamente a própria família. Precisou deixar a República Democrática do Congo (RDC) em 2013, após questionar o processo eleitoral que reelegeu o atual governo – que está no poder desde 2001. “A denúncia que fiz trouxe muita perseguição. Deixei a minha família para salvar a minha vida, nem a minha esposa e meus filhos sabiam para onde eu estava indo. Tudo precisava ser escondido porque se eles [a polícia do governo] te pegam, você morre”, explica. Em 2014, conseguiu trazer a mulher e as crianças, e seu terceiro filho nasceu no Brasil.

Segundo Jean Katumba, falta informação sobre a diversidade cultural dos refugiados. “Comecei a perceber que há uma percepção, para a maioria dos brasileiros, de que todos os refugiados e imigrantes negros são haitianos. Você passa na rua e dizem: ‘olha o haitiano’. Então percebi que a gente precisava de mais comunicação”, ele conta. A preocupação do congolês é oferecer às pessoas a possibilidade de contato com os diferentes fluxos migratórios que o Brasil recebe. 

 

 

A presença da Copa dos Refugiados no calendário de eventos de São Paulo contribui para que o tema seja discutido e ganhe espaço nos meios de comunicação, além de estimular o envolvimento de comunidades de refugiados que vivem na cidade. A programação da quarta edição do campeonato contará com palestra, o tradicional campeonato de futebol e algumas surpresas. Entre as novidades, a Copa terá um jogo educativo com equipes formadas por homens e mulheres. “Os homens precisam entender que as mulheres estão dentro do jogo, e que lá também é o lugar delas […] E por quê? Porque precisamos abandonar nossos preconceitos, temos uma cultura muito machista. Como estamos no Brasil, vamos superar esses preconceitos e absorver também as coisas boas da cultura brasileira”, explica, ao citar as discussões recentes sobre o machismo no Brasil.

A programação da Copa dos Refugiados deste ano será divulgada nos próximo meses e a organização trabalha para atrair novos parceiros, além dos que já apoiam o evento, a exemplo do ACNUR, a Caritas Arquidiocesana de São Paulo e o Sesc-SP.

África do Coração

 

No último ano Jean reuniu alguns amigos para fundar a ONG África do Coração, que segundo ele não é restrita a uma temática continental. “Consideramos a África o berço da humanidade, por isso também participam pessoas da Síria, Iémen e outros países. A ideia é reunir uma família, de diversos lugares do mundo”, diz. Um dos primeiros trabalhos conduzido pela ONG é a elaboração de um mapeamento das mães refugiadas que vivem atualmente em São Paulo, perfil geralmente mais vulnerável por uma série questões, como aspectos culturais e ausência de políticas públicas específicas na cidade.

“Em muitas culturas é o homem quem providencia tudo para a mulher, mas agora elas estão sozinhas, e os homens lá [no outro país]. Fica difícil para essa mulher, e mesmo que depois de um tempo o marido consiga vir para o Brasil, a mulher vai passar um logo período de dificuldades. Qual será o futuro dela aqui no Brasil? Porque na atual situação ela está condenada a ficar sempre pedindo aqui e ali, e isso não é dignidade humana”, conta Jean. Com o estudo finalizado, a ideia é organizar projetos que pensem alternativas e principalmente cobrem políticas de integração, levando em consideração as especificidades da mulher refugiada.

Outro trabalho conduzido na África do Coração é um curso de idiomas que será oferecido para as organizações que atendem refugiados, e de acordo com Jean Katumba uma forma de agradecimento. Cada organização convidada poderá indicar dois de seus voluntários para cursar inglês ou francês, em aulas que serão ministradas pelos próprios refugiados. “Queremos ajudar quem sempre nos ajudou. A gente não pode ficar somente reclamando, é preciso fazer algo”, diz.

 Seja à frente da África do Coração ou na organização da Copa dos Refugiados, Jean percebeu que a desinformação é o maior obstáculo para a superação de preconceitos enraizados no senso comum. Não à toa, costuma lembrar que “o Brasil foi construído também pelos índios e pelos africanos”, e para ele o caminho é destacar cada vez mais essa pluralidade cultural.

Por Nilton Carvalho